sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Violência Gratuita


352º dia / 15º filme

Filme: Violência gratuita

Ano de lançamento: 2008

Direção: Michael Haneke

Ao contrário do que a grande maioria das pessoas que não me conhece pensa, por eu ter essa cara amarrada e parecer constantemente de mal humor, por quase nunca sorrir numa conversa onde não conheço as pessoas, diametralmente oposta a imagem que eu passo às pessoas, sempre gostei muito de acreditar no ser humano, de acreditar que o homem ainda tem solução, mas não, não se iluda como eu me iludi durante toda a vida. É uma constatação dura de ser feita, mas para nosso próprio resguardo, é bom termos em mente que o ser humano, de modo geral, não vale grande coisa, não me baseando unicamente nas premissas marxistas (pois em muitos casos elas são obsoletas e ridículas) o máximo que qualquer ser humano pode valer é o quanto ele pode ser rentável produtivamente, e olha que ultimamente nem isso tem feito as pessoas valerem grande coisa.

Nós, seres humanos, somos desprezíveis, idiotas, canalhas, crápulas e medíocres da pior espécie e se algum vínculo ainda consegue persistir, lutando a duras penas para controlar minimamente a animalidade presente dentro de cada um de nós, ao contrário do que se pensa não é a grande invenção do homem, o afamado amor, é sim a amizade, que tratarei no filme “Harry Potter”, próximo post do blog. O problema é que a amizade também pode ser destruída com o tempo. Todos nós temos o animal dentro de nós, por sorte, conseguimos mantê-lo imperceptível, escondido atrás de algumas ‘máscaras sociais’, seja num cargo de chefia, numa pessoa muito crítica, em uma pessoa que não consegue manter-se séria, em alguém sem expressões, que passa despercebida, em um excesso de emotividade. Todas estes são disfarces, ora conscientes, ora inconscientes, mas que escondem a fera que há dentro de cada ser humano. E o filme que eu comentarei hoje, atrasado por sinal, abordará esta temática.

O Sr. Michel Haneke, diretor austríaco, entende como poucos o quanto o ser humano é sádico, o quanto ele gosta e pede para sofrer, demonstrando que pedimos por absolutamente tudo o que nos acontece. O filme “Funny games”, na tradução literal ‘jogos engraçados’, mas no título em português, “Violência gratuita”, é uma refilmagem do filme “Funny games”, do mesmo diretor, rodado em 1998 na Alemanha. Michael opta por reconstituir exatamente o mesmo filme, alterando apenas os atores, mantendo, desde a metragem idêntica dos cenários do original, paleta de cores, até as roupas que os personagens usam. O filme foi filmado plano a plano como é o original de 1998.

O filme conta a história de uma família que vai passar o fim de semana na casa de campo, e assim que chegam, dois jovens vestidos de jogadores de golf os visitam, identificando-se como hóspedes da família da propriedade ao lado, pedindo ovos emprestados. A mulher dá os ovos, eles quebram, eles pedem mais ovos, novamente eles quebram, até ela perceber que a situação fugiu do controle, eles atacam o marido da mesma e explicam o jogo, tortura pela tortura, nada mais que isso, e ao fim eles matam a família.

O público fica chocado com a frieza e simplicidade que o filme se apresenta, porém, olhando-se para a carreira de Haneke, percebemos que as reações sobre seus filmes são estas mesmas, amor e ódio, e neste filme em específico, a violência é mostrada de forma ao mesmo tempo tão explícita, tão velada, pois ao espectador não é dada a oportunidade de ver a violência física senso infringida, ficando por conta da carga de referencias que trazemos com nós mesmos.

Nesta película nos é dada a escolha de ver o que queremos, pois a violência está em nós a princípio, então nossos traços animalescos coletados no decorrer de nossas vidas, a carga de violência que nos é imposta pela carga genética humana, que nos torna desumanos, consegue fazer com que vejamos monstros, mas nada vimos senão os reflexos de nós mesmos. O filme nada mais faz, senão incitar isto a partir de um intrincado jogo de palavras ou do som, e percebam que funciona, o som desperta as piores coisas que trazemos dentro de nós. E ao mesmo tempo nos é imposta a condição de terceiro agressor, todos os que assistem ao filme participam indiretamente da tortura, pois nós sabemos o que está se passando, os torturadores nos encaram, nos acenam, dialogam conosco com olhares. Portanto, pelo simples fato de conseguir demonstrar quem realmente somos tão claramente, todos os louros para Michael Haneke!

Nenhum comentário:

Postar um comentário